Bootstrapping: como montar uma startup sem investidores

O bootstrapping é a prova viva de que, com algum planejamento, foco e sem cometer excessos e loucuras, nada é impossível. E é claro que isso se aplica ao universo das startups.

Você, que lê com frequência os artigos do Blog da Abstartups, deve saber que nós adoramos referências culturais, quaisquer que sejam elas. Mas, dessa vez, nós iremos fugir do comum. 

Não, não falaremos de empresas que conseguiram fazer algo impossível citando “Só Os Loucos Sabem”, do Charlie Brown Jr. Não vamos dizer, aqui, que “o impossível é só questão de opinião”.

Isso seria clichê demais. Nada contra clichês, mas você merece mais do que isso. 

E, além disso, a origem do termo que é o tema desse texto tem muito mais a ver com outra história. Mais precisamente, um conto infantil. 

Você já deve ter ouvido falar d’O Gato de Botas. Também já deve ter ouvido, ainda que resumidamente, a história criada pelo francês Charles Perrault. E ela tem, pelo menos, dois pontos que vão ao encontro do tema desse texto. 

Mas, para isso, chegou a hora de colocar tudo em ordem cronológica. 

Origem do termo

Não, bootstrapping não é um termo surgido no universo das startups. Bem longe disso, por sinal. E bem antes disso, também.

Lá no século XIX, mais precisamente na década de 1880, os ingleses costumavam usar botas para se proteger do frio na Grã-Bretanha. E as botas de cano alto tinham uma alça especial.

Essa alça ajudava o dono da bota a calçá-la – algo sempre útil durante um inverno rigoroso. Esse acessório era chamado de boostrap. 

Nada mais natural, já que “strap”, em inglês, é “alça”. E “boot”, bem, é “bota”.

Mas, calma! Ainda não chegamos no principal sobre essa alça.

Acostumados com o bootstrap, os ingleses começaram a falar uma expressão que tornou-se famosa naquela época.

A expressão era, ipsis literis, “pull oneself up by one’s bootstraps”. Traduzindo, ela significa algo como “puxar-se por suas próprias botas”. A frase se refere a algo praticamente impossível.

Ah! A expressão ipsis literis significa “literalmente” em latim.

Conforme o tempo foi passando, a expressão foi ganhando novos significados. Na década de 1920, “pull oneself up by one’s bootstraps” passou a significar algo como “se virar sem ajuda de ninguém”.

E, aqui, chegamos no conceito de bootstrapping para startups.

O termo significa, basicamente, abrir uma empresa com seus próprios recursos. Sim, isso mesmo: sem ajuda externa nem de terceiros. 

Mas como isso é possível?

Sim, parece uma ideia quase inalcançável abrir uma startup com a cara, a coragem e apenas o seu próprio dinheiro. Mas isso é bastante possível.

De acordo com o Center for Venture Research, centro de pesquisas em negócios da Universidade de New Hampshire, cerca de 80% das startups são bootstrappers.

Mais do que isso: a média do capital inicial para abertura da empresa é de cerca de US$ 10 mil. Pouco para o mercado, mas valor bem considerável para um empreendedor brasileiro.

Como você deve imaginar, a escolha por abrir uma empresa no modelo de bootstrapping é ousada. 

Como já dissemos nesse texto e sempre falamos aqui no Blog da Abstartups, estamos aqui para ajudá-lo. E, caso essa seja a sua escolha (ou necessidade), nada melhor que algumas dicas.

  • Benchmarking

Mapear o mercado de cabo a rabo, como diriam os mais antigos, é fundamental para se dar bem tendo apenas o próprio investimento no orçamento.

Aqui, é possível verificar como seus concorrentes vendem, fraquezas, oportunidades e insights para diferenciais no nicho. 

  • Modelo de negócios bem definido

Até para resolver a sua vida financeira pessoal rapidamente, é necessário montar uma empresa que comece a ter rendimentos o quanto antes.

Caso isso não aconteça, a chance da sua empresa e, até mesmo, de você se endividar e não conseguir tracionar a sua empresa são muito grandes. 

  • Relação com a mídia

É natural que, no começo, poucos jornalistas e profissionais de Comunicação te conheçam. E, obviamente, caso você se torne reconhecido, tanto melhor.

Por isso, mostre-se aberto a contatos com repórteres de revistas, jornais, rádios, televisões e etc. E não deixe de dar opiniões: conteúdo sobre o mercado eles já possuem.

  • Engajamento

No geral, pessoas gostam bastante de novidades. Você pode, então, unir o útil ao agradável. Seu público chega e é premiado por ajudá-lo na divulgação, por exemplo.

Interaja com eles. Faça sorteios, distribua brindes. Tudo isso faz com que a sua empresa seja conhecida – e que pessoas falem de você umas para as outras.

  • Atualize o que você já possui

Um dos principais erros de quem faz bootstrapping é, apenas, buscar novas tecnologias. Tão importante quanto isso é fazer a manutenção do que você já possui.

Site? Redes sociais? ERP? Novas tecnologias? Pense, primeiro, em fazer algo adequado ao seu orçamento. Não gaste muito logo de primeira. Depois, atualize conforme lucrar.

  • Marketing

Não subestime o poder que esse setor pode ter no seu negócio. Muitas vezes, a criatividade vale tanto quanto o valor que você vai investir.

Não deixe de ler sobre marketing, tanto sobre conceitos tanto quanto cases. Toda leitura e conhecimento abstraído ajuda a ter bons insights.

  • Coloque tudo no papel

Quando você tem pouco dinheiro disponível, é fundamental ter um controle sobre absolutamente tudo que você possui. 

Monitore entradas, saídas, investimentos futuros e toda e qualquer movimentação financeira para não ter surpresas desagradáveis e não perder a rédea dos seus negócios.

  • Corte despesas

Essa dica é uma parente próxima da anterior. Ao planilhar tudo o que você gasta, é possível identificar o que é supérfluo e, também, o que pode ser diminuído.

No caso específico do bootstrapping, você tem que estar preparado, também, para cortar algumas despesas pessoais – sobretudo no começo da sua startup.

  • Aposte em você

Sem muita margem para gastar, quanto menos contratações você fizer, melhor. Portanto, encare até mesmo as tarefas que você não gosta muito de fazer.

Todo começo é difícil, e iniciar o próprio sonho é algo ainda mais complicado. É o seu futuro profissional e o começo da empresa que você mesmo vai gerir. Mentalize isso.

  • Não desista

A palavra “resiliência” ganhou muita popularidade nos últimos tempos. E ela serve perfeitamente para um empreendedor que está começando uma empresa agora.

Para um bootstrapper, as dificuldades são inúmeros e imensas. Mas, seguindo as dicas que demos acima, você tem boas chances de ter sucesso.

Quais empresas utilizaram bootstrapping

Seria muito fácil falar, aqui, sobre como fazer uma empresas que utiliza o conceito de bootstrapping crescer sem dar exemplos de que esse objetivo, tão difícil, é possível.

Não estamos aqui para deixar margem de dúvidas. Não faltam exemplos de empreendedores bootstrappers que, além de lucrar, se tornaram conhecidos do mercado.

Conheça alguns deles:

  • Romero Rodrigues – Buscapé

Fundado em 1998, o BuscaPé surgiu como a principal figura à frente do portal que compara preços em uma série de sites. Isso com R$ 100 por mês de cada um dos três sócios.

CEO até 2015, ele vendeu parte da Buscapé em 2009 pela bagatela de US$ 342 milhões. Parece uma boa venda, não?

  • Bill Gates – Microsof

Acredite: até mesmo a gigante do ramo de informática foi uma empresa surgida no modelo que estamos explicando. 

Com softwares e computadores intuitivos, ela logo se popularizou entre empresas. Depois, o pulo para tornar os PCs algo necessário em uma casa também foi razoavelmente rápido.

  • Michael Dell – Dell

O fundador da famosa empresa de hardware, em 1984, fundou a instituição com mil dólares. Isso com apenas 19 anos.

Hoje, a empresa possui cem mil colaboradores e, em 2017, a Forbes o listou como o 10º maior bilionário da área da tecnologia, com patrimônio de US$ 22,4 bilhões.

  • Rodrigo Cartacho – Sympla

Fundador de sete empresas ao todo, Cartacho inaugurou a Sympla em 2012, junto com dois sócios. A plataforma já vendeu mais de 45 milhões de ingressos em quase 3000 cidades.

Em 2016, a empresa já movimentava R$ 118 milhões em vendas online. Em 2017, um crescimento de 150% e R$ 200 milhões em movimentação total. Nada mal, não?

Maravilhoso! Mas… tenho algum suporte?

Por ser uma empresa que tem o seu comando, ninguém, obviamente, estará o tempo inteiro com você tal qual um oráculo. E, convenhamos: que bom, não?

Mas, se você pensar em ajuda, tenha certeza que a Abstartups está com você. E, para uma empresa que está no modelo de bootstrapping, nós temos muito valor. Modéstia à parte, claro.

Para saber um pouco mais sobre o mercado em que você atua, nós oferecemos para você a StartupBase, um imenso compilado de dados sobre diversas empresas. Também é possível saber mais sobre comunidades de startups.

Se você quer seguir aprendendo e lendo conteúdos sobre empresas de tecnologias, sua parada é aqui, no Blog da Abstartups.

Também oferecemos para nossos parceiros diversas mentorias com profissionais renomados no mercado. E temos dois eventos para aprendizado e networking: o CASE e o StartupON.

É claro que, quando falamos de parceria, não poderíamos deixar de fora os benefícios que você pode usufruir. Tudo é muito válido para um bootstrapper.

Confira a lista de áreas nas quais você pode ter algum ganho:

O caminhos para o bootstrapping é ainda mais tortuoso que o normal, sabemos disso. Conte com a nossa ajuda ajuda!

By |março 18, 2020|ABStartups|

About the Author:

Ana Flávia Carrilo
Apaixonada por escrita, comunicadora por nascença e formada em jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Acredita no acesso a informação como forma de transformação social. Atualmente, faz parte da equipe de comunicação da Associação Brasileira de Startups, ajudando a desenvolver o ecossistema empreendedor brasileiro.