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Anjos, chancela das novatas?

O anjo, personagem comum no mercado de capital de risco americano e que tem se difundido no Brasil, costuma estar associado aos estágios iniciais do ciclo de vida das startups, sendo muitas vezes o primeiro investidor financeiro dessas. O papel de provedor de recursos, contudo, é simplório demais para retratar todas as contribuições proporcionadas por esse importante ator.

Em geral, um profundo conhecedor do setor de atuação de sua investida, o anjo atua validando seu modelo de negócios, avalizando a equipe que a compõe, além de dar visibilidade à novata e colocar à disposição sua rede de contatos (o famoso networking).

O rol de externalidades associadas à presença dessa classe de investidor não para por aí. Na dissertação de mestrado que defendi recentemente foram analisadas mais de 170 empresas, avaliadas por fundos de venture capital (VC) brasileiros que demonstram que os anjos atuam como uma “chancela” para esses investidores. Utilizando diferentes metodologias para identificar anjos, foi possível constatar, por meio de análises econométricas, que a presença daqueles eleva a probabilidade de receber aporte de VC em mais de 20%, nas empresas iniciantes.

Esse resultado surpreendente pode ser em parte explicado pelo fato de que pela presença do anjo mitiga a assimetria de informação com que se deparam os fundos ao analisar empresas sem histórico de resultados. Outra explicação reside na própria imaturidade do mercado de capital de risco no país, algo que já havia sido observado em pesquisas semelhantes realizadas em outras economias emergentes, como Chile e Argentina.

A despeito de serem classes de investidor distintas, em termos de objetivos, horizontes de investimento, perspectivas de retorno, e (obviamente) capacidade de aporte de recursos, o estudo aponta que a interação entre anjos e VC costuma ser sinérgica para a startup, e, em especial, para os empreendedores. Por vezes, jovens, sem experiência pregressa de gestão, os empreendedores enxergam no anjo um “ombro amigo”, com quem podem trocar ideias e discutir abertamente os percalços por que tem passado.

Outra conclusão importante do estudo foi a de que, mesmo no caso de startups, os fundos não pautam suas decisões se baseando apenas em características da empresa em si (como receita líquida, idade e setor de atuação), mas também levam em consideração aspectos da transação (como valor do aporte e percentual de participação). Também são apresentados diversos dados sobre a demografia das empresas investidas pelos anjos brasileiros, fortemente concentrada em empresas de TI.

Por fim, cabe uma observação importante. Apesar de ser um componente relevante no processo decisório dos VC, no caso de startups não basta saber apenas se a empresa possui ou não anjo. Tão importante quanto isso é quem ele é, ou seja, qual sua experiência pregressa no setor e/ou suas qualificações, de modo a verificar se seriam úteis à empresa. Em linha, com esse raciocínio, o estudo constatou também que as empresas com anjos possuem valuations mais caros, em média, sinalizando que esses cobram um “prêmio” por sua participação.

** Os pontos de vista expressos neste artigo refletem exclusivamente a opinião do autor e não a visão da FINEP.

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