Por que ainda são tão poucas mulheres fundando startups no Brasil?

O ecossistema brasileiro de startups avançou muito na última década. Mais empresas, mais capital, mais inovação. Mas quando olhamos para quem está fundando essas empresas, ainda encontramos uma desigualdade estrutural importante.

De acordo com o Mapeamento do Ecossistema Brasileiro de Startups 2025 da ABStartups, apenas 19,9% das pessoas fundadoras de startups no Brasil são mulheres. O dado representa um pequeno avanço em relação aos 19,2% registrados na edição anterior do estudo, mas ainda evidencia um cenário no qual o empreendedorismo inovador permanece majoritariamente masculino.

Quando analisamos áreas ligadas a ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), que concentram boa parte das startups mais tecnológicas, essa desigualdade se torna ainda mais evidente.

Em verticais intensivas em tecnologia, os dados mostram um forte desequilíbrio de gênero:

  • Indtechs: 95,29% de fundadores homens e apenas 3,53% de mulheres
  • Techs: 89% de fundadores homens e 8,97% de mulheres
  • Deeptechs: 60% de fundadores homens e 37,84% de mulheres

Ou seja: quanto mais tecnológica e científica é a startup, menor tende a ser a presença feminina. Esse cenário não é fruto de falta de talento ou capacidade. Ele reflete desafios estruturais que atravessam toda a jornada empreendedora feminina.

Entre os principais obstáculos estão o acesso desigual a capital, a menor presença feminina em áreas técnicas, a dificuldade de inserção em redes de investidores e mentores, que ainda são predominantemente masculinas, e os desafios adicionais enfrentados por muitas mulheres ao conciliar empreendedorismo, carreira e responsabilidades familiares.

Outro fator importante é o viés, muitas vezes inconsciente, presente no processo de investimento. Estudos internacionais mostram que fundadoras costumam receber menos capital de risco do que fundadores homens, mesmo quando apresentam modelos de negócio comparáveis.

Mas o cenário também traz sinais de transformação. O crescimento da presença feminina em áreas como deeptech, onde já observamos quase 38% de participação, demonstra que quando mulheres acessam formação científica, redes de apoio e oportunidades de inovação, elas ocupam esses espaços com força.

O desafio agora é acelerar essa mudança. Isso passa por ampliar o acesso de meninas e mulheres às áreas STEM, fortalecer redes de mentoria feminina, criar programas específicos de investimento em startups fundadas por mulheres e, principalmente, ampliar a diversidade nas próprias estruturas de decisão do ecossistema, fundos, aceleradoras e lideranças institucionais.

O futuro do ecossistema de inovação brasileiro depende disso. Porque quando mais mulheres fundam startups, não ganham apenas as empreendedoras, ganha o próprio ecossistema, que passa a refletir melhor a diversidade de problemas, soluções e perspectivas da sociedade.

No Dia Internacional da Mulher, o convite é claro: não basta celebrar as fundadoras que já chegaram até aqui.
É preciso abrir caminho para muitas outras que ainda estão por vir.

Colunista ABStartups

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