Se o Brasil fosse uma startup, já teria pivotado. Só falta o governo entender.
O Brasil é uma máquina de gerar talento, ideias e inovação. E também uma máquina de travar quem ousa empreender, às vezes parece saído de um romance de Franz Kafka — labirintos burocráticos, impostos sufocantes, instabilidade regulatória e formulários que se multiplicam por conta própria (KAFKA, 1925). Esta realidade é a antítese de qualquer ecossistema que queira ser global desde o nascimento. O resultado? Startups que gastam mais energia sobrevivendo do que inovando.
Na matemática, as cadeias de Markov ensinam: cada decisão muda a probabilidade dos futuros possíveis (MARKOV, 1906). No Brasil, insistir em tributar até o oxigênio aumenta a chance de continuarmos presos num ciclo de baixo crescimento. Mas há outra rota: menos impostos “estratégicos”, mais previsibilidade, mais confiança. Esse caminho não garante prosperidade, mas muda radicalmente as chances de alcançá-la.
Em 2025, o governo do Paraná reduziu o IPVA em 45%. Em dez dias, os emplacamentos subiram 11% (VEJA, 2025). A Curva de Laffer, tão contestada em sala de aula, mostrou seu efeito na prática: quando o imposto sufoca, o mercado para de respirar. Quando o Estado solta o garrote, a economia reage (LAFFER, 2004). Irlanda, Estônia e outros hubs provaram o mesmo em escala global (OCDE, 2023).
Ludwig von Mises já dizia que quem move a economia são os empreendedores, não o Estado (MISES, 1949). Startups são a prova viva disso: arriscam, criam, inovam. Só que, no Brasil, a engrenagem está emperrada por uma matriz econômica que pune quem empreende. É como tentar correr uma maratona com o governo sentado nos ombros.
Mas não basta só destravar o ambiente interno. O Brasil precisa pensar como uma startup global. Precisamos adotar uma mentalidade de internacionalização — abrir portas comerciais, simplificar regras de comércio internacional, negociar para que as nossas empresas tenham acesso a mercados lá fora. Do outro lado, o empreendedor também precisa nascer global, construindo soluções com visão internacional desde o início. Se não pensarmos em escala global, continuaremos presos a um mercado interno limitado, caro e volátil.
Por isso, este manifesto é simples: se queremos um Brasil de unicórnios e não de empreendimentos sufocados, precisamos reduzir custos que travam consumo e capital, simplificar a burocracia que mata tempo e energia, garantir estabilidade regulatória para gerar confiança, criar incentivos claros à inovação e ao investimento privado — e adotar, como política de nação com todos os entes envolvidos, a mentalidade da internacionalização.
Empreender no Brasil é um ato de coragem. Mas coragem não deveria ser requisito para abrir uma empresa — deveria ser combustível para inovar e competir globalmente. Está na hora de transformar o ato de empreender em um ato de liberdade e de escala. Menos custos. Mais futuro. Mais mundo.
Fontes:
KAFKA, Franz. O processo (Der Prozess). 1925.
LAFFER, Arthur. The Laffer Curve: Past, Present, and Future. The Heritage Foundation, 2004.
MARKOV, Andrei.Extension of the Law of Large Numbers to Dependent Events. St. Petersburg: Imperial Academy of Sciences, 1906.
MISES, Ludwig von. Human Action: A Treatise on Economics. New Haven: Yale University Press, 1949.
OCDE. OECD Science, Technology and Innovation Outlook 2023: Enabling Transitions in Times of Disruption. Paris: OECD Publishing, 2023.
REVISTA VEJA. “Redução do IPVA no Paraná aumenta emplacamentos em 11% em dez dias”. Veja, São Paulo, 2025.
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Felipe Seabra
Colunista ABStartups
