Guerra FrI.A.: O risco que não aparece no seu pitch deck

No mundo digital, seu aplicativo brasileiro pode ser peão de um jogo geopolítico invisível. Enquanto você ajusta métricas, turbina ads e celebra rounds, firewalls, sanções e algoritmos decidem quem cresce, quem sobrevive e quem desaparece do mapa empreendedor

Imagine um campo de batalha sem trincheiras, sem armas visíveis, onde o inimigo não dispara balas, mas bloqueios, firewalls e algoritmos que decidem quem pode acessar o que. 

Esse é o novo front do que chamo de Guerra FrI.A., ou seja, a guerra fria digital que já envolve soluções tecnológicas brasileiras, muitas vezes sem que suas pessoas fundadoras sequer percebam. Enquanto seu time celebra métricas de crescimento e rounds de investimento, governos e megacorporações podem impactar quem tem permissão para existir online ou para ver o que e quem estará no topo de qual loja virtual. 

A Guerra Fria Original 

Historicamente, a Guerra Fria (1947 – 1991) foi um período de intensa rivalidade geopolítica, ideológica e militar entre EUA e União Soviética, após o fim da Segunda Guerra Mundial. A guerra era denominada fria porque não se manifestava “tradicionalmente” mas sim por meio “velado”, através da corrida armamentista nuclear, espionagem, propaganda, disputas tecnológicas e apoio a aliados em conflito armado em que dois países ou poderes rivais não lutam diretamente entre si, mas apoiam lados opostos em outro território, usando forças locais, grupos armados ou governos como intermediários, conhecida como Proxy War. 

E a Guerra Fria 5.0

De forma análoga podemos “definir” a Guerra FrI.A. (ou guerra fria digital, como preferir) como o conflito geopolítico contemporâneo travado no espaço virtual, em que países e grandes corporações usam tecnologia em hardware e software, dados e elementos como inteligência artificial e cybersegurança como “armas” estratégicas. Diferente de guerras tradicionais, não há mísseis ou fronteiras físicas, há bloqueios de APIs, restrições de acesso a modelos de IA e chips, sanções digitais e controle sobre infraestrutura crítica de internet, como cloud e hardware. 

Startups e apps brasileiros podem se tornar, muitas vezes sem saber, peças nesse xadrez global, ficando vulneráveis a restrições que afetam escalabilidade, operação e competitividade. 

Inovar à Brasileira nunca foi tão vital 

Ou seja, para startups brasileiras, a questão não é apenas “inovar rápido”, mas sobreviver local (e/ou globalmente). Por exemplo, um app de uma FinTech que depende muito de APIs estrangeiras para autenticação pode ser repentinamente limitado ou até momentaneamente pausado.  

O futuro não é apenas sobre quem cria o melhor algoritmo, mas sobre quem consegue contornar as fronteiras digitais antes que elas se fechem. O que antes parecia invisível, a dependência tecnológica e regras digitais internacionais, agora é a linha de frente. Já pensou nisso? 

Com isso pessoas investidoras podem refletir que a velha análise de tração e receita não captura a vulnerabilidade de estar preso numa infraestrutura controlada do outro lado do planeta. 

E elas podem se proteger mapeando dependências críticas (APIs, frameworks, fornecedores de cloud e modelos de IA) e avaliando exposição a sanções e restrições regionais, assim como criar escalas de risco e vulnerabilidade tecnológica, investir em soberania de dados e resiliência operacional e realizar due diligence contínua transformam risco digital em vantagem competitiva. 

Aliás, no centro disso está a IA que tanto temos falado em fóruns, summits e pitches. 

Modelos, frameworks e bibliotecas que parecem open source podem, amanhã, se tornar território fechado, acessível apenas a certas regiões ou equipamentos.

Vamos pensar em alguns exemplos: A Nvidia lançou o sistema operacional de IA Dynamo como open source, mas projetado especificamente para funcionar com suas GPUs, o que pode criar uma dependência de hardware, limitando a verdadeira flexibilidade do modelo open source. (Tech Radar, 2025).

Já a startup chinesa DeepSeek lançou o modelo DeepSeek-R1 (a hype do início do ano) com pesos abertos, mas sem divulgar completamente os dados de treinamento, ou seja, embora ofereça desempenho competitivo a um custo reduzido, a falta de transparência completa podem impactar a acessibilidade, governança e a natureza open source do modelo para usuários. (Vox, 2025)

Ou seja, estamos diante de um desafio estratégico importante, que se trata de diversificar fornecedores, investir em infraestrutura própria, negociar alianças nacionais e internacionais e construir produtos que sobrevivam a políticas digitais imprevisíveis. 

Para pessoas empreendedoras brasileiras, compreender a Guerra FrI.A. significa sobrevivência corporativa. 

E para se (tentar) proteger?

Para tal, as pessoas empreendedoras precisam adotar uma estratégia de resiliência tecnológica, diversificar fornecedores de cloud e serviços críticos, investir em alternativas locais e nacionais para dados e IA, acompanhar políticas internacionais de tecnologia e participar de fóruns sobre soberania digital.

Além disso, mapear dependências críticas e realizar testes de contingência ajuda a reduzir riscos de bloqueios ou interrupções. 

Em resumo, a inovação precisa caminhar junto com inteligência geopolítica e gestão de risco digital.

Por fim, a Guerra FrI.A. nos lembra que o futuro da tecnologia não será decidido apenas entre os “Grandes Hubs de Tecnologia” nacionais (ou os internacionais que conhecemos), mas em mapas invisíveis de controle de dados, regras de IA e sanções digitais. 

Governança de dados, soberania tecnológica e resiliência de infraestrutura figuram como blindagem estratégica, mais do que “mera burocracia” ou palavras bonitas. Para quem opera no Brasil, conhecer esse campo de batalha é mais valioso do que qualquer pitch deck. Essa será a diferença entre liderar o próximo unicórnio, a próxima zebra ou desaparecer silenciosamente do radar regional (e/ou

Colunista ABStartups

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