E se sua startup não resolver nenhuma “dor”?

No ecossistema de inovação, repetimos que toda startup deve resolver uma dor. Mas algumas das maiores transformações nascem não de dores, algumas apenas facilitam um processo, outras nos aproximam de grandes paixões ou despertam o desejo humano por status social — e ignorar isso é perder oportunidades gigantes.

Olá, sou André Crepaldi, investidor serial em startups, com mais de US$ 100 milhões captados e investidos. Como Co-CEO as a Service, mentor estratégico e avaliador em programas globais, ajudo startups a crescer e captar recursos, investidores a identificar oportunidades qualificadas e grandes corporações a desenvolver soluções inovadoras e projetos de Corporate Venture.

Um dia eu conheci um fundador que me disse:

“Não resolvemos nenhuma dor, só tornamos tudo mais fácil e divertido”

Fiquei cético com aquele comentário. Como avaliador e investidor, a primeira pergunta sempre é: qual dor sua startup resolve?
Mas, com o tempo, percebi algo curioso. Nem sempre o sucesso nasce da dor. Até o momento eu percebi que existem quatro grandes motores que movem startups: dor, facilitador, paixão e status. (Claro que podem existir outros “motores” que eu não percebi até o momento).
Cada um desses “motores” tem riscos, oportunidades e formas de escalar. E cada investidor olha para eles de um jeito.

Startups que resolvem uma dor

Startup clássica, há um problema real, frustrante, caro e uma dor clara que precisa ser resolvida.

Um bom exemplo é o QuintoAndar, antes dele, alugar um apartamento no Brasil era burocrático, demorado e cheio de incertezas. O QuintoAndar eliminou frustrações e trouxe segurança.

Mas o que pensam os investidores sobre esse “motor”:
Modelo familiar.
Mercado entende a dor.
Aceitação rápida.
Mas atenção: competição intensa. Onde há dor, há vários tentando resolver o mesmo problema.

Como é o mercado:
Escalável se houver grande necessidade e execução impecável.
A diferenciação é essencial.

Startups que facilitam um processo

O facilitador não elimina uma dor aguda. Mas torna a vida mais simples, rápida e intuitiva. Você consegue realizar os processos sem a ajuda de um facilitador.
Um bom exemplo é o Uber, o transporte sempre existiu, mas o app tornou pegar um carro rápido, confiável e transparente. A experiência ficou simples e padrão.

O que pensam os investidores:
Se é fácil de perceber o valor é um bom sinal.
Se é difícil de perceber o valor, o risco de aceitação lenta.
A experiência precisa ser superior.

Como é o Mercado:
Altamente escalável se tornar hábito.
Exige diferenciação clara e execução impecável.

Startups que exploram uma paixão

O motor emocional, Startups que apostam em grandes paixões — futebol, música, cinema, games e gastronomia — criam valor pela conexão profunda com os desejos humanos.
Um bom exemplo é o Cartola FC, um app que une fãs de futebol, permite criar times e competir, explorando a paixão pelo esporte de forma engajada e divertida.

O que pensam os investidores:
Paixão engaja, mas pode ser volátil.
Uma tendência duradoura pode sustentar o crescimento, mas um modismo passageiro pode desaparecer rápido.
A aceitação explode em nichos engajados, mas escalar exige cuidado.

Como é o mercado:
Engajamento intenso.
Fidelização alta.
O desafio é crescer sem perder autenticidade.

Startups que atendem ao desejo de status social

O motor social, startups crescem porque oferecem palco para status, reconhecimento e identidade.
Um bom exemplo é o Instagram, não resolveu uma dor evidente. Mas tornou possível compartilhar sua vida, construir reputação e pertencer a comunidades.

O que pensam os investidores:
Engajamento poderoso, mas imprevisível.
Depende de comportamentos culturais voláteis.
Retorno pode ser monumental se houver identificação real.

Como é o mercado:
Altamente escalável.
Pode gerar impérios quando cria pertencimento genuíno.

Se continuarmos avaliando startups apenas pela régua da “dor”, podemos perder outras Startups igualmente poderosas. Sabemos que resolver um problema é essencial, mas facilitar claramente um processo ou nos aproximar de uma paixão e Startups que geram status sociais também constroem negócios globais. Startups não existem apenas para curar feridas. Elas existem para transformar vidas e comportamentos.

E talvez — só talvez — a próxima grande startup brasileira não resolva nenhuma dor e ainda assim seja uma ideia bilionária.

Conte sua história, qual “motor” sua startup usa?

Colunista ABStartups

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