Blended finance está mudando o jogo

Nem todo dinheiro faz uma startup crescer, mas a combinação certa de capitais pode mudar o jogo.

Nos últimos anos, venho acompanhando de perto o desempenho de startups que assessoramos após captarem incentivos públicos. E confesso: poucas coisas me chamaram tanto a atenção quanto o impacto que esse tipo de capital pode gerar. Empresas ainda em fase inicial, mas que acessaram grants ou programas de apoio, apresentaram aumentos consistentes de valuation nas rodadas seguintes, algo entre 30% e 40%, em média.

Para mim, isso nunca foi coincidência. Sempre enxerguei o incentivo público como um sinal de validação, e não como um “dinheiro fácil”. Ele mostra que há algo sólido o suficiente para ser apoiado por um governo ou por um fundo público. E esse selo de confiança, em ecossistemas maduros, muda tudo. Foi justamente essa percepção que me levou a estudar o conceito de Blended Finance, uma prática amplamente consolidada na Europa, mas ainda pouco explorada no Brasil.

Segundo o relatório State of Blended Finance 2024, da Convergence, para cada €12 bilhões em incentivos públicos, geraram-se €520 bilhões em valor de mercado e €70 bilhões em investimento privado adicional. Esses números apenas confirmam o que já observo na prática: o dinheiro público não substitui o capital privado, ele o prepara. É o impulso inicial que dá equilíbrio para o movimento continuar. Ele reduz o risco percebido pelos investidores, ajuda a financiar o P&D e constrói a confiança necessária para atrair capital privado mais robusto.

E é aqui que está, na minha opinião, o grande erro de muitas startups brasileiras: tentar decidir entre grants, venture capital ou bootstrapping, como se fossem caminhos excludentes.

Na realidade, a força está na combinação. O bootstrapping é a crença, os grants são o combustível da inovação, e o venture capital é o acelerador do crescimento. Separados, são estratégias táticas; juntos, são uma estratégia inteligente de funding.

Cada componente tem seu papel:

• O bootstrapping demonstra convicção e disciplina dos fundadores.
• Os grants públicos impulsionam inovação, testagem e construção inicial.
• O venture capital chega quando é momento de escalar, de acelerar o crescimento.

Quando bem combinados, constroem equilíbrio, resiliência e independência. A startup valida antes de crescer e atrai investidores mais qualificados, não apenas capital, mas confiança.

A Europa entendeu isso antes de nós. Lá, políticas públicas já estimulam a união entre capital público e privado como parte do mesmo ciclo de desenvolvimento. O resultado é previsibilidade, escala e menos dependência de uma única fonte.

No Brasil, ainda é comum tratar cada tipo de capital como se fossem opções de captação, escolhe-se uma em vez da outra, quando, na verdade, deveriam atuar como elementos complementares de uma mesma sinfonia.

Na minha visão, o futuro não será movido apenas por capital, mas por combinações inteligentes de capital.

E talvez essa seja a pergunta que todo founder deveria se fazer: você ainda está só buscando investimento ou já está estruturando uma estratégia de funding que gere confiança, solidez e independência?

Fontes:

https://digital-strategy.ec.europa.eu/en/library/eu-funded-startups-drive-technological-sovereignty-europe

https://research-and-innovation.ec.europa.eu/strategy/strategy-research-and-innovation/jobs-and-economy/eu-startup-and-scaleup-strategy_en

Colunista ABStartups

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