Quando e como ter conversas difíceis com os sócios

Talvez você ainda não saiba, mas sua relação com os seus sócios pode estar em perigo.

Desalinhamentos societários são uma das principais causas de mortalidade em startups, e a grande maioria dos empreendedores ignora esse risco. Isso porque nem todo desalinhamento é perceptível no dia a dia.

Aliás, provavelmente você e seu sócio já estão desalinhados, mas ainda não perceberam. E nem sempre isso significa brigas ou um clima pesado; muitas vezes, é apenas o acúmulo silencioso de pequenas frustrações, decisões mal comunicadas e expectativas diferentes.

A CB Insights revela que quase um quarto das startups fecha as portas por conflitos entre sócios. Depois de mais de dez anos acompanhando de perto a jornada de fundadores, percebi que existem sinais claros, e muitas vezes negligenciados, de que a relação está em desgaste:

• Não possui acordo de sócios assinado
• O acordo de sócios não reflete o momento atual da startup
• Sócios minoritários estão insatisfeitos e desmotivados
• Falta autonomia nas funções
• Não há clareza sobre quem decide
• Há vesting com colaboradores sem documento formalizado
• A startup não está crescendo

Se algum desses pontos soa familiar, é hora de ter uma conversa com os seus sócios. Relações societárias raramente se rompem de repente, elas se desgastam aos poucos, quando decisões importantes deixam de ser discutidas com transparência.

No Brasil, estudos indicam que só cerca de 23% das startups mantêm Acordo de Sócios formalizado, ou seja, quase 77% ainda operam sem esse instrumento.

E o mito mais perigoso de todos: achar que, por conhecer o sócio há anos, não há o que alinhar. Quanto mais acreditamos que estamos “em sintonia”, menos enfrentamos os temas desconfortáveis, e é aí que mora o risco.

O checklist do alinhamento societário.

Um bom alinhamento societário depende de reservar tempo de qualidade para discutir, com transparência, temas como governança, expectativas, entregas e princípios, como.

• Governança: cadência de reuniões, processo decisório, rituais de cultura, política de stock options, entrada de investidores e regras de saída.
• Expectativas: o que cada um espera da startup, retorno financeiro, ritmo de crescimento, apetite ao risco e planos futuros.
• Entregas: responsabilidades e dedicação de cada sócio, definição de pró-labore e distribuição de lucros.
• Princípios: valores pessoais, ética, cultura, participação de familiares e regras de conduta.

Embora desafiadoras, essas conversas são essenciais para consolidar a governança. São elas que separam grupos de fundadores de equipes verdadeiramente maduras. Após o diálogo, é fundamental formalizar o pactuado no Acordo de Sócios. É este documento que protege a empresa e reforça sua credibilidade perante investidores.

Adiar o conflito não o resolve, apenas o encarece. Cada desalinhamento ignorado cobra seu preço: em dinheiro para a empresa e em desgaste emocional para os sócios.

Fontes:

https://www.cbinsights.com/research/report/startup-failure-reasons-top/

https://bvalaw.com.br/wp-content/uploads/2022/01/BVA-Startups-Legal-Report-2021.pdf

Colunista ABStartups

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