Antes de tudo, mentorar é um ato ético.
Durante uma formação voltada à mentoria e liderança, compreendi que o papel do mentor vai muito além de orientar tecnicamente, ele é um provocador de consciência, um mediador de reflexões e um semeador de autonomia.
Essa compreensão ganhou forma prática no Science Hackathon by Nestlé, no Desafio IFRJ e no Inova Norte (maratona que integrou estudantes de diferentes instituições federais de ensino do Brasil). Nesses programas nacionais de inovação voltado a jovens, acompanhei equipes transformando ideias em soluções reais. A experiência revelou como a escuta ativa, o incentivo à autonomia e o exercício das virtudes, como paciência, empatia e sabedoria prática, tornam o processo de mentoria um espaço de crescimento mútuo e propósito compartilhado.
No contato direto com as equipes, percebi que a mentoria é um encontro entre duas éticas: a do dever e a da consequência. A ética deontológica lembra que existem princípios inegociáveis, a confidencialidade, a integridade e o respeito mútuo, que estruturam qualquer relação de confiança. Já a ética consequencialista amplia o olhar para o impacto das decisões: cada conselho, cada provocação, cada silêncio do mentor pode gerar efeitos que vão muito além de um projeto.
Inspirada pela ética das virtudes de Aristóteles, aprendi que ser mentor é praticar o bem pelo hábito. É um exercício de presença e equilíbrio, em que o conhecimento técnico só se torna sabedoria quando é atravessado pela escuta e pela sensibilidade.
O mentor não dita caminhos, mas cria condições para que o outro descubra o seu, um processo profundamente humano e transformador.
No ecossistema de startups, onde métricas e resultados costumam acelerar decisões, a mentoria ética resgata o elemento humano que sustenta a inovação: o cuidado. É nele que se encontram a empatia e o propósito, forças capazes de gerar soluções sustentáveis e relações duradouras. Inovar é também agir com consciência; mentorar é preparar pessoas para que o façam com propósito e responsabilidade.
Cada mentoria é um laboratório ético, um espaço de aprendizagem e reciprocidade. Quando o mentor exerce seu papel com autenticidade, não forma apenas profissionais mais preparados, forma indivíduos mais conscientes de seu papel no mundo. E orientar, no fim das contas, é plantar o futuro: um futuro que nasce da escuta, floresce no exemplo e frutifica em impacto coletivo.
Referências:
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural, 1984. (Coleção Os Pensadores). Disponível em: https://etica.uazuay.edu.ec/sites/etica.uazuay.edu.ec/files/public/Ética-a-Nicômaco.pdf
CRUZ, Jorge Silva. Ética das virtudes: em busca da excelência. Revista de Medicina (São Paulo), São Paulo, v. 99, n. 6, p. 591-600, nov./dez. 2020. Disponível em: http://dx.doi.org/10.11606/issn.1679-9836.v99i6p591-600
GARVEY, Bob. As origens e significados da mentoria. In: LAW, David D. et al. Making Connections: A Handbook for Effective Formal Mentoring Programs in Academia. [S.l.: s.n.], 2023. p. 5-12.
Experiências práticas em programas nacionais de inovação e ecossistemas de startups (Science Hackathon by Nestlé, Desafio IFRJ, Inova Norte, Nexus Circle/PIT – Parque Tecnológico de São José dos Campos).

Tatiana Secco Fazio
Colunista ABStartups
