Ao longo da minha carreira liderando, participando e co-criando projetos de inovação e transformação em startups, pequenas e grandes corporações, vivenciei um padrão que se repetia de maneira frustrante. Reunimos os profissionais mais talentosos, aplicamos as metodologias mais dinâmicas e, com muito empenho, lançamos produtos e soluções que, por si só, eram bem-sucedidos. Cumpríamos objetivos, melhorávamos indicadores e celebrávamos as conquistas. Entretanto, ao refletir sobre o todo, a sensação de um impacto verdadeiro e duradouro era efêmera. Solucionamos uma questão logística e, sem perceber, geramos um pesadelo para a equipe de atendimento. Introduzimos uma funcionalidade solicitada pelos clientes e observamos a complexidade do nosso sistema crescer a tal ponto que dificultava futuras melhorias.
É o tradicional jogo de “bater na toupeira”, só que em nível empresarial. Foi nesse ciclo de vitórias sem sentido que uma verdade desconfortável se tornou evidente: o problema não estava na nossa habilidade de execução, mas na nossa maneira de ver. Estávamos utilizando a ferramenta inadequada para o problema que enfrentávamos. Estávamos utilizando uma lupa, quando o que realmente precisávamos era de um mapa.
Por muitas décadas, a inovação foi orientada pela lógica da lupa. Uma lógica cativante, que nos ensina a pegar um problema, separá-lo de seu contexto, ampliá-lo ao máximo e concentrar todos os nossos recursos na resolução daquela pequena parte visível. Nossas estruturas organizacionais reforçam essa perspectiva: operamos em silos departamentais, com metas e indicadores que incentivam melhorias pontuais, muitas vezes em prejuízo da visão global. A pressão por resultados a curto prazo nos impede de enxergar as consequências a longo prazo. Essa abordagem simplista funcionou em um mundo de desafios mais diretos, mas atualmente, ela nos conduz a uma perigosa falta de visão. Ao nos concentrar demais na árvore, perdemos a noção da floresta.
A verdadeira inovação, que provoca transformações significativas, está em fazer uma escolha consciente: deixar de lado a segurança da lupa e aceitar a complexidade do mapa.
Essa metodologia é oficialmente conhecida como Mapeamento de Sistemas Sociais (Social System Mapping). Como definem seus criadores:
Mapeamento de Sistemas Sociais é um tipo de nova linguagem visual que está emergindo da confluência entre visualização de dados, ciência de redes e pensamento sistêmico. Esperamos que essa ferramenta se torne tão essencial para compreender e interagir com a dinâmica invisível de redes e sistemas humanos, quanto o mapeamento geográfico é para entender e navegar no mundo físico. (fonte https://help.sum-app.net/portal/en/kb/articles/what-is-social-system-mapping)
O que gosto nesta abordagem é que ela não se baseia em elaborar um diagrama técnico e impessoal, mas em promover um processo colaborativo e humano de construção de entendimento compartilhado(sensemaking) – a formação de uma compreensão mútua. Trata-se de unir as diferentes pessoas que fazem parte de um sistema e permitir que elas reconheçam a si mesmas e suas conexões pela primeira vez.
Nesse cenário, a perspectiva de líderes como Jacqueline Novogratz, fundadora da Acumen, enriquece essa abordagem. Ela considera esse trabalho não apenas como uma atividade técnica, mas como um exercício de “imaginação ética”. Isso requer a humildade de “ouvir aqueles que não são ouvidos” e perceber o sistema em sua verdadeira essência, em vez de como os relatórios de gestão sugerem. E, a partir dessa clareza autêntica, ter a coragem de imaginar juntos como ele poderia ser diferente.
O diagrama visual que resulta desse processo expõe as dinâmicas que estão escondidas: as relações de confiança, as influências que circulam, os ciclos de feedback que mantêm o sistema inalterado e as crenças mais profundas que sustentam o funcionamento atual. Com essa visão abrangente, é possível identificar os reais pontos de alavancagem – locais onde uma intervenção bem pensada pode criar ondas de mudança, ao invés de apenas consertar um defeito. O uso é tão abrangente que até mesmo governos, como o do Reino Unido, estão sendo encorajados a implementar o mapeamento de sistemas para enfrentar desafios complexos da nação.
E pra mim, isso transforma a essência da inovação! Ela passa de ser sobre a criação de um produto isolado para ser sobre reconfigurar relações, modificar fluxos e questionar paradigmas mentais.
A provocação que trago é a seguinte: em um país de dimensões continentais como o nosso, insistir em inovar com a lupa não é apenas um caminho mais longo e penoso — é arriscar criar complicações que podem se tornar irreversíveis.O convite para todo inovador, líder ou agente de mudança neste momento é claro. O papel não é mais apenas ser um “resolvedor de problemas”, mas sim um “cartógrafo da complexidade”. Precisamos aprimorar a capacidade de facilitar esse processo de construção de sentido, de criar mapas de modo colaborativo e de explorar o campo com uma visão sistêmica. Essa mudança de perspectiva, do foco na peça para a compreensão do sistema, do detalhe para a visão geral, é o que finalmente desbloqueará as soluções criativas e resilientes que nossos desafios contemporâneos necessitam.
Referências
ACADEMIA ACUMEN. Introdução: As Práticas de Liderança Moral da Academia Acumen. Material do curso. [s.l.], [s.d.]. Material fornecido.
BARBROOK-JOHNSON, Pete. It’s time for the UK government to embrace systems mapping. CECAN, 18 maio 2022. Disponível em: https://www.cecan.ac.uk/blog/its-time-for-the-uk-government-to-embrace-systems-mapping. Acesso em: 21 jul. 2025.
CAPRA, Christine. A Social System Mapping Sensemaking Story. Medium, 21 dez. 2022. Disponível em: https://medium.com/@GreaterttSum/a-social-system-mapping-sensemaking-story-dc33482982ec. Acesso em: 21 jul. 2025.
CAPRA, Christine. What is Social System Mapping?. Greater Than The Sum, [s.d.]. Disponível em: https://greaterthanthesum.com/what-is-social-system-mapping. Acesso em: 21 jul. 2025.
CAPRA, Christine. What is Social System Mapping?. Medium, 21 dez. 2022. Disponível em: https://medium.com/@GreaterttSum/what-is-social-system-mapping-5ad75d6ecd4e. Acesso em: 21 jul. 2025.
THE OMIDYAR GROUP. Systems Practice. [s.l.], c. 2017. Workbook. Material fornecido.

Olívia Fernandes Boretti
Colunista ABStartups
